STORIES IN SHAPES

STANDARDS MANUAL

Quadra Collective

Hamish Smyth

"Acreditamos que o minimalismo nos poupa da grande quantidade de informação e comunicação visual pesada a que somos expostos todos os dias."

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Introdução

A primeira vez que ouvi falar sobre o Andre foi quando seu novo portfolio havia sido destacado em alguns ‘sites do dia’ como o The FWA e Awwwards, pra citar os mais conhecidos, além de algumas entrevistas que surgiram do lançamento até hoje, como o que concedeu a AIGA Eye on Design enquanto trabalhava como Associate Creative Director na Huge. Quase um ano se passou desde então.

O trabalho do Andre é marcado por um tratamento de design modernista, provavelmente inspirado em grandes nomes da história do Design, como Massimo Vignelli. Algo que pode ser observado pelo refinamento tipográfico e uso satisfatório de espaços em branco. Niemeyer soltaria um “de modos que”, dando sua aprovação certamente.

Ele mantém uma coleção chamada “Almost” no seu site, com projetos que, segundo ele, ou não foram publicados ou não foram bons o suficiente para ter espaço no seu “hall da fama” pessoal. Por lá eu já vi alguns trabalhos para o produtor musical PC Baruk até. Nem imaginava.

Depois de trocar emails e de ter respondido a essas perguntas, mesmo não o conhecendo pessoalmente – apesar de vários amigos em comum – comentei com ele sobre ter me identificado com as respostas, principalmente na parte da família.

Um cara que considero como mentor certa vez me disse que não adianta você ser muito foda, a questão é se as pessoas gostam de você e querem você por perto. Andre é um profissional com talento notável e certamente muito querido pelas pessoas que o cercam.

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Andre do Amaral. Foto por Peter Yang.
Faça uma breve apresentação sobre você.

Sou designer. Moro em NY, mudei do sul do Brasil há 4 anos e trabalho no Squarespace. Antes disso, trabalhei na Huge e na Hello Design em Los Angeles na California. Tenho uma esposa linda que eu amo, uma filha de 2 anos e um cachorro chamado Zeh.

“Ready to kill”. Porque isso te define?

Porque eu busco ser extraordinário e não ordinário. Quando começo qualquer projeto, minha atitude nunca é: “Ah, esse é só mais um”. Pelo contrário, sempre penso “esse precisa ser o melhor projeto que já fiz”. Não importa como, mas eu preciso ser melhor do que fui no projeto anterior. Muitas vezes você precisa quebrar regras, elas são feitas para não levar uma empresa ao caos e controlar as massas. Sabe aquele cara, que chega, sai e não fez nada pra melhorar, só reclama? As regras são para este tipo de pessoa. Mas se você quer fazer acontecer, e quer deixar seu nome em algo, você precisa quebrar elas.

Como você iniciou sua carreira como designer digital?

Em 1998 eu tinha 11 anos e meu tio (isso mesmo, eu sou o sobrinho que você tanto ouviu falar) tinha uma empresa de relógio ponto, me pediu se eu queria, nas tardes livres, começar a fazer crachás pra ele usando o Corel Draw 4 em um Windows 95. Na hora eu falei que sim, porque ele era referência de alguém que eu queria ser no futuro. Eu cheguei a cursar eletrônica em uma escola técnica perto da minha cidade, aprendi a programar em Q-Basic.

Mas lembro claramente quando eu vi um rascunho de um logo que um designer da época havia criado pra ele e fiquei intrigado, na hora mesmo perguntei: “O que eu preciso aprender para fazer isso?”. Mal sabia eu, que fazendo crachás já estava me ajudando de alguma forma a entrar naquele mundo.

Era engraçado, porque muitos clientes não tinham logo, e minha reação era: “Não tem problema, a gente cria um aqui” (risos). De fato, quando visito meus pais no sul do Brasil, eu vejo um desses logos, que criei 15 anos atrás. Vignelli chamaria isso de timeless.

Ainda na empresa do meu tio eu comecei a fazer o material impresso, catálogos dos relógios, cartões de visitas, desenhava o teclado numérico que usavamos nos relógios.Certo dia eu me deparei com uma dessas escolas de informática, com um curso de HTML acontecendo, e pensei: “Vamos lá, porque não?”. Lembro de abrir o bloco de notas e digitar a tag marquee, ver o texto rodando na página e ficar impressionado: “Eu fiz isso?”.

Resumindo, acabei fazendo o site da empresa do meu tio e criamos um departamento interno só dedicado a fazer sites, o nome da empresa era Sanvitron, criamos a SanviWeb (duh), e começamos a fazer sites para os mesmos clientes que, antes, compravam relógios. Pouco tempo depois, eu decidi sair e ir para uma pequena agência, foi então que eu realmente comecei a treinar meu olho e a prestar atenção nos princípios de Design.

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Homepage do portfolio de Andre do Amaral.
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“I moved to Squarespace last year. Since then, I’ve been working in building a team and designing multiple experiments for Squarespace’s main website.”, do Amaral.
Como as experiências vindas dessa época – mesmo que pequenas no início – tem sido refletido no que você faz e como faz hoje?

Outro dia ouvi um amigo comentar algo de mim: “O Andre tenta aprender com todo mundo e adquirir o que cada um tem de bom pra ele”. Eu acho que prestar atenção em tudo e em todos é uma das coisas que eu aprendi desde o começo. Todo mundo tem algo pra te ensinar, nem que seja o que não fazer.

Você já deve ter tido oportunidades de liderar diversas equipes com gente de níveis variados. Qual o aspecto mais importante ao liderar uma equipe de designers? O que significa liderança pra você?

Liderança pra mim é você dar liberdade com responsabilidade. Acho que todos no time tem algo para somar. O que sempre me frustrou, foi o chefe “bam-bam-bam” que acha que só a idéia dele é importante. Vou te contar, o Lucas Hirata é o melhor designer que já trabalhei até hoje, ao mesmo tempo o ser humano mais humilde da face da terra. Outro exemplo é o Ramon Fritsch, sem dúvidas o melhor developer que conheci até hoje, quem me conhece sabe, trabalhamos juntos nos últimos 11 anos, e ele é o cara mais simples que eu já vi, até um piano ele já carregou comigo, literalmente. Qualquer pessoa extraordinária que eu conheço é simples e direto. É claro que quando você dá liberdade, alguns usam de forma errada, mas quando você cria um ambiente transparente, as outras pessoas acabam rejeitando qualquer tipo de atitude que não seja para o bem do projeto.

“Eu acho que prestar atenção em tudo e em todos é uma das coisas que eu aprendi desde o começo. Todo mundo tem algo pra te ensinar, nem que seja o que não fazer.”

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“I love music. Leon Bridges is an incredibly talented musician and songwriter. I had the pleasure of working on his website at Squarespace.”, do Amaral.
Como aconteceu a mudança para o Squarespace e no que você está envolvido por lá? E como isso se encaixa na sua visão profissional hoje?

Fazia tempo que eu pensava em trabalhar em uma empresa de produto e comparar como seria em relação ao trabalho em agências. Ano passado depois de lançar meu portfolio, recebi algumas ofertas, entre elas estavam a Apple, Squarespace e algumas agências. Mesmo que a Apple pareça um sonho de se trabalhar, eu não fiquei tão animado, porque era no time de marketing. Eu cresceria, mas não tanto quanto a possibilidade de viver em NY e trabalhar em um produto sólido que me mostraria o que é realmente viver fora do mundo de agências por um tempo. E no fim deu muito certo, eu hoje trabalho com pessoas extraordinárias com as quais eu aprendo todos os dias.

Eu trabalho com o time de frameworks / templates. Que é o time que analisa o que pode ser tendência no futuro e aplica isso a novas idéias / oportunidades de negócio. Eu tenho aprendido muito a pensar em sistemas e não em um design específico. Por exemplo: é mais simples você desenhar um site A ou B. Mas você desenhar algo que funcione de A a Z é um pouco mais delicado. Acho que isso me puxa para fora da minha zona de conforto. O que me deixa animado.

Você tem uma longa experiência com agências do nível Huge e Hello Design, te permitindo participar de diversos projetos para grandes companias. Como se deu a decisão de trabalhar num time interno, como Squarespace, que é focado em apenas um produto? (se posso chamar de apenas um produto)

Eu já estava bastante tempo em agências. E na Huge, as pessoas que me inspiravam já tinham saído, ou estavam saindo. Eu queria trabalhar focado no cliente em um só produto. O problema as vezes da agência é que quando um projeto está indo para a parte que você realmente construiu aquilo que desenhou, você é alocado em outro projeto e ninguém toma o cuidado que você tomaria com aquele projeto específico, e sabe lá como as coisas acabarão. Queria trabalhar em algo que eu pudesse me envolver não só com o design, mas também ter a certeza de que o projeto seria de fato realidade.

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Squarespace CMS
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“Throughout my career I designed a few photographers’ websites, but none of them were as special as this one.”, do Amaral.
Se você tivesse que comparar times de Design a um esporte, qual seria esse esporte e por quê?

Eu sou tão ruim no futebol, que lembro uma vez indo para a “escolinha” na minha cidade quando era criança e pegando a bola com a mão dentro da area, perguntando o que era pra fazer (isso é sério), e foi penalty é lógico. Mas eu acho que compararia times de Design ao futebol americano, porque quando eles atacam, todo mundo precisa trabalhar, a defesa precisa proteger o quarterback (o cara que arremessa a bola), ou seja, todo mundo precisa fazer seu trabalho direito, não adianta você só ter o melhor atacante, porque a bola não vai chegar até ele.

Mas foi legal você mencionar isso, porque uma das coisas que eu percebo assistindo qualquer esporte aqui, é o empenho e disciplina. Eu amo o Brasil, mas acho que muito da nossa cultura reflete nos esportes, do “deixa a vida me levar”, enquanto aqui é ao contrário, eles querem ser sempre os melhores não importa como. É só a gente prestar atenção no quadro de medalhas a cada Olimpíada.

Que legado você deseja deixar para o mundo?

Criar minha filha. Eu acho que preparar um ser humano para o mundo é o maior legado que alguém possa deixar. Eu amo Design e faço todo dia com o coração grato, mas eu nunca quero deixar minha profissão ser mais importante do que minha família.

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BeuatyCounter na seção Almost
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Andre e sua filha Melissa. New York, USA. (Arquivo pessoal)
Como você busca inspiração e como você procura se manter motivado ao trabalhar em algo?

Eu procuro não olhar ao que todo mundo está olhando, como por exemplo se você desenha sites, porque olhar a mais sites? Busco inspiração em filmes, livros, revistas de design gráfico, até mesmo em cidades. Uma coisa que me dava raiva dirigindo no Brasil, era o fato do nome das ruas, sempre estarem escondidos atras de árvores, eu não conseguia ver o nome da rua até ser muito tarde. Vindo para os EUA foi uma das coisas que percebi, dirigindo na West Coast, que você avista o nome das ruas 1 milha antes.

Um conselho que você dá para profissionais que estão começando.

Não seja tímido. Desde o começo da minha carreira eu sempre tive o hábito de mandar emails para designers que eu admirava, e isso sempre funcionou muito bem. Um exemplo simples e sensacional, foi que em 2011, na minha primeira viagem a NY, eu escrevi pra um designer da Huge falando que adorava o trabalho dele e que queria tomar um café (com meu inglês de contrabandista colombiano), aquele email fez eu conhecer o Memória, que me contratou para HUGE Rio.

Muitos dos meus amigos pensam que eu comecei no design porque queria ser rico, e não tem nada há ver com isso. Escolha algo que você tenha prazer em fazer. Não algo que vai te dar prestígio. Os melhores momentos da minha vida foram quando eu decidi sair da minha zona de conforto. A vida é muito curta pra você ficar em um só lugar fazendo a mesma coisa com as mesmas pessoas. Seja sempre sua melhor versão, hoje!

Artigo publicado por Gláuber Sampaio em Setembro, 2016.

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